01/09/2017: Com classe, Totia Meireles dribla nervosismo e se prova grande cantora em show retrospectivo

Totia Meireles
Show: Meu Nome é Totia – Cantoras Musicais
Data 30 de agosto
Local: Teatro Porto Seguro – São Paulo (SP)
Foto: Edson Lopes Jr.
A despeito de ser um dos nomes mais conceituados do teatro musical brasileiro, a carioca Maria Elvira Meirelles jamais foi reconhecida como a ótima cantora que é. Em seu extenso currículo figuram obras que, em comparação, comporiam a história dos grandes nomes da Broadway e do West End londrino.
A atriz esteve em produções como A Chorus Line (musical que a revelou ao lado de nomes como Cláudia Raia e Eduardo Martini), Sweet Charity (encenada no Rio de Janeiro, sob a supervisão de Marília Pêra), Company (primeiro musical de Stephen Sondheim montado no Brasil, sob a direção de Charles Möeller e Cláudio Botelho) e Gypsy (também de Möeller e Botelho), numa trajetória que soma 33 anos.
Portanto, é sintomático que em seu primeiro show solo a atriz visite temas destas produções, entrelaçados num conciso roteiro de tom quase didático, escrito pela diretora Cláudia Netto.
Aliás, a direção de Netto é um dos grandes pontos altos deste show, que apresentou ao público um histórico tanto da carreira de Totia quanto da obscura figura de Maria Elvira, raramente presente nas aparições públicas desta atriz de indizíveis 58 anos de idade.
Em tom cronológico, Meireles subiu ao palco ao som de One, icônico tema do musical A Chorus Line, para, logo em seguida, se apresentar a qualquer desavisado da plateia por meio de Meu Nome é Totia, canção que dá título ao show, composta pela atriz, cantora e (bissexta) compositora Fafy Siqueira.
No tema, Siqueira traça o perfil desta atriz com bom humor e charme, características que permearam toda a apresentação que, por vezes, ameaçou assumir um tom meramente burocrático, mas saiu ileso graças à descontração da cantora, que não se privou de dividir com o público um ou outro esquecimento de letra, como no doído Desabafo de Roberto e Erasmo Carlos, e no tango Carlos Gardel, de Herivelto Martins e David Nasser.
A despeito dos esquecimentos, nada empanou a beleza das apresentações, tampouco o brilho da noite, que enfileirou temas de tom burlesco (como a tríade que uniu Hey Big Spender, de Cy Coleman e Dorothy Fields, tema do musical Sweet CharityViver do Amor, de Chico Buarque de Hollanda para a Ópera do Malandro, e All that Jazz, clássico de John Kander e Fred Ebb, para Chicago), com sambas que compõem o repertório pessoal da artista.
Inclusive, Meireles se provou grande cantora justamente por passear com naturalidade tanto por temas de acento teatral, quanto por clássicos do cancioneiro popular tupiniquim. Se não conseguiu realçar todo o brilho de Retalhos de Cetim (canção que pôs Benito Di Paula no hit parade de 1973), Totia ressignificou versos de Nem Morta, obscura canção de Michael Sullivan e Paulo Massadas, e fez simpática releitura de Não Deixe o Samba Morrer, ambas do repertório de Alcione
Mas foi quando abusou dos seus dotes dramáticos que a atriz realmente levou o show às alturas. Relembrando sua passagem por Company, de Stephen Sondheim, Totia repôs sua força a serviço de The Ladies Who Lunch, em versão fluente de Cláudio Botelho, num dos melhores momentos do show.
Fora da seara dos musicais, a artista pintou com novas cores o samba Bom Dia e sublinhou os versos conformados de Caminhemos, canções de Herivelto Martins, compositor tema de seu próximo trabalho no teatro, o monólogo musical Herivelto como Conheci, de Cláudio Botelho, baseado no livro homônimo de Yaçanã Martins e Cacau Hygino.
Se Negue, clássico de Adelino Moreira lançado por Nelson Gonçalves e imortalizado por Maria Bethânia, ganhou ares extremos de “sofrência” (como credenciou a atriz), I’m Still Herestandart de Stephen Sondheim, composto para o musical Follies (ainda inédito no Brasil) e versionado por Cláudio Botelho, encerrou o show, antes do BIS, na medida exata, sem exageros vocais ou de arranjo.
Aliás, há de se destacar a presença dos ótimos músicos que acompanharam a cantora em cena. Numa formação inusitada, Meireles deitou e rolou sob o piano de Marcelo Castro e a bateria de Beto Bonfim (pontualmente adornadas pela percussão de Olivia Rabacov), que ajudaram a sublinhar a riqueza de canções como as supracitadas All that Jazz e Carlos Gardel.
Com BIS flertando com o trivial, Meireles relembrou sua (icônica) Mama Rose ao som de Everything’s Coming up Roses, também de Stephen Sondheim (em parceria com Jule Styne) e saiu de cena ao som de Volta por Cima, de Paulo Vanzolini, deixando a impressão de que, embora não saísse de seu universo profissional e pessoal, Meu Nome é Totia é um ótimo cartão de visitas para qualquer desavisado que não conheça Totia Meireles, uma das maiores atrizes de sua geração e também uma das grandes cantoras que o Brasil não teve chance de ouvir.
Confira o repertório seguido na noite de 30 de agosto:
1- One (Marvin Hamlisch/ Edward Kleban – versão: Millôr Fernandes)
2- Meu Nome é Totia (Fafy Siqueira)
3- Nunsense is Habit-Forming (Dan Goggin – versão: Flávio Marinho)
4- Hey, Big Spender (Cy Coleman/ Dorothy Fields – versão: Flávio Marinho)
5- Viver do Amor (Chico Buarque de Hollanda)
6- All that Jazz (John Kander/ Fred Ebb – versão: Cláudio Botelho)
7- Ladies Who Lunch (Stephen Sondheim – versão: Cláudio Botelho)
8- Retalhos de Cetim (Benito Di Paula)/ Tomara (Vinicius de Moraes) – com: Olívia Rabacov
9- Nem Morta (Michael Sullivan/ Paulo Massadas) – com: Olívia Rabacov
10- Não Deixe o Samba Morrer (Edson Conceição/ Aloísio Silva) – com: Olívia Rabacov
11- Bom Dia (Herivelto Martins/ Aldo Cabral)
12- Caminhemos (Herivelto Martins)/ Carlos Gardel (Herivelto Martins/ David Nasser)
13- Negue (Adelino Moreira/ Enzo de Almeida Passos)
14- Desabafo (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos)
15- I’m Still Here (Stephen Sondheim – versão: Cláudio Botelho)
BIS:
1- Everything’s Coming up Roses (Jule Styne/ Setephen Sondheim – versão: Cláudio Botelho)
2- Volta por Cima (Paulo Vanzolini) – com: Olívia Rabacov

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