Totia Meireles sobre tráfico humano: “As sequelas no corpo e na alma dessas mulheres são enormes”

   No auge da carreira, Totia Meireles vem fazendo sucesso na pele da vilã Wanda de "Salve Jorge". Sua personagem, uma mulher sem escrúpulos que trafica belas jovens e bebês e ainda se tornou assassina, não mede esforços para arrancar do caminho quem ameaça seus planos. “No início da novela, acreditava que a Wanda tinha uma deformação de caráter e que isso fazia com que quisesse se dar bem, diz a atriz a Marie Claire Online. “Não achei que chegaria a matar”. Seja na ficção ou na vida real, a experiência de Totia mostra que a crueldade dos criminosos não tem limites. “O que a gente retrata na novela é muito maquiado e muito mais suave do que a realidade”, conta. A seguir, os principais trechos da entrevista:
Marie Claire - Imaginava que sua personagem fosse crescer tanto?
Totia Meirelles - Não. A Wanda foi mudando com o decorrer do tempo. No início da novela, acreditava que ela tinha uma deformação de caráter e que isso fazia com que quisesse se dar bem. Pensei que a maldade da personagem iria até a página dois, que ela traficaria pessoas, mas que ainda havia uma ponta de humanidade e de piedade dentro dela. Não achei que fosse ultrapassar esses limites e que chegaria a matar. A Wanda tomou um corpo que independia de mim e da Gloria (Perez, autora da novela). As coisas foram acontecendo e ela se tornou o que é. Sarcástica. Terrível. Adoro a Wanda.
MC - A Wanda se mostrou capaz de transitar muito bem entre os traficantes e os familiares das traficadas e de enganar todo mundo...
TM - Isso é bem legal, porque ela mostrava duas caras. Quando era amiga, era amiga mesmo. Uma pessoa bacana que as outras queriam ter por perto. Uma mulher acima de qualquer suspeita.
MC - Assim são os traficantes de pessoas na vida real?
TM -
O tráfico humano é um crime que a gente sabe que existe, mas não sabe quem são os aliciadores. Eles podem ser qualquer pessoa. Por isso é tão bacana tratar desse assunto e colocá-lo nas rodas de discussão. É como a Gloria diz, se conseguirmos impedir que uma pessoa seja traficada, a novela valerá a pena. Hoje já existem ONGs que atendem as vítimas e o número 180 que recebe denúncias tanto no Brasil quanto em alguns países do exterior. As coisas estão andando e as pessoas estão se mobilizando. Mais do que isso: meninas que achavam que no exterior é tudo maravilhoso estão sendo alertadas.
MC - Você faz cenas fortes na novela, como elas repercutem na sua vida pessoal?
TM -
Fiquei muito mexida com a cena do atropelamento do Santiago. Passei com o carro por cima de um saco de areia, que simulava o corpo, e tive uma sensação muito estranha. Nunca atropelei ninguém, mas tenho a impressão de que a sensação é a mesma. Depois da cena a gente brinca, mas foi muito esquisito. Foi muito ruim.
MC - Até porque para interpretar você tinha de imaginar que havia um corpo?
TM -
Exatamente. E ainda tinha de ter prazer em fazer aquilo. Foi muito ruim.
MC - Os métodos usados pelos traficantes reais te impressionam?
TM -
Fico muito impressionada em saber até que ponto eles chegam e a maneira como tratam as traficadas. O que a gente retrata na novela é muito maquiado e muito mais suave do que a realidade. Dependendo do tipo físico das aliciadas, elas são mandadas para boates classe A, B, C e daí em diante. Ouvi o relato de uma menina que dizia que muitas ficam em lugares piores do que os fundos da Central do Brasil.
MC - Como assim?
TM -
São obrigadas a ter relações sexuais com pessoas com feridas no corpo, com indigentes que passam e pagam para ter uma mulher. Há vítimas que vivem em alojamentos sujos, sem água corrente e banheiro. Têm de tomar banho de caneca. São histórias muito deprimentes. Durante um workshop antes do início da novela, uma vítima nos contou que foi para o exterior junto com a sobrinha. As duas foram separadas, ela foi mandada para esse cenário horroroso e a outra moça acabou morta.
MC - É impossível esquecer uma experiência como essa...
TM -
As sequelas no corpo e na alma dessas mulheres são enormes. Elas ficam marcadas para sempre. Passam por muita humilhação, apanham demais. Acho que não tem recuperação. Mesmo com acompanhamento psicológico, há cicatrizes que não vão se fechar nunca.
MC - Há pessoas que têm dificuldades de se reconhecerem como vítimas. Elas, de alguma forma, se culpam por terem caído nas redes de tráfico?
TM -
As vítimas, não. Mas é comum familiares e amigos demorarem a aceitá-las. Apesar de elas terem sido escravizadas, a figura da prostituta é mais forte e vem em primeiro lugar. Sempre fica algum preconceito.

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