O Globo: Totia Meireles é um furacão teatral varrendo o palco

Eu tive um sonho — e este sonho é o passaporte para impor o meu desejo ao mundo. O egoísmo feroz da afirmação move a vida de Rose Hovick, a mãe autoritária, devastadora, o centro da cena em “Gypsy”, novo cartaz musical irresistível que chegou para arrebatar a cidade. Sob a cegueira imposta por seu desejo de poder, Rose tenta ser alguém através de suas filhas: ela luta para transformá-las, uma depois da outra, em estrelas de teatro. O libreto de Arthur Laurents, inspirado no livro de memórias de Gypsy Rose Lee, a filha que alcançou sucesso graças ao striptease, é um estudo teatral da relação de poder em família.
Totia Meireles é um furacão teatral varrendo o palco
O pano de fundo é a história do teatro e da sociedade americana do início do século XX. Vale dizer: graças a um olhar cáustico, está em cena uma impiedosa caricatura dos limites do individualismo norte-americano e da dinâmica da cena do teatro ligeiro, pródiga em gente miúda, ambições desmedidas e projetos fracassados. O papel da “mãe de teatro” alucinada, que pretende virar o jogo com as armas de sua pobre existência, é um grande desafio. No Teatro Villa-Lobos, ele se tornou um acontecimento histórico, a comovedora consagração de Totia Meireles: corra para ver, a temporada vai ser muito curta.
Totia Meireles integra uma quadrilha de teatro, uma turma de bandidos especializados em roubar a alma do espectador, sob a liderança genial de Charles Möeller, autor de uma direção histórica. Diante de uma joia clássica do teatro musical, com música de Jule Styne e letras de Stephen Sondheim, ele conciliou tradição e invenção: manteve as diretrizes essenciais do original, criou novas soluções para os números de passagem e para o desenho de cena e coordenou a extensa ficha técnica sob um tom de brejeirice bem nacional, clara influência da excelente versão de Cláudio Botelho.
O resultado da alquimia é muito positivo. A Rose de Totia Meireles combina sedução e desvario, explora soluções magistrais para a contracena, o canto e a dança, comove, diverte e surpreende, é um furacão teatral varrendo o palco e a alma do público. O seu Rose’s Turn, no final, é um turbilhão de humanidade.
Mais do que isso, vale a ressalva, quadrilha é quadrilha. O impacto positivo da encenação é resultado de conjunto; há um efeito gypsy, cigano, encantador, que transforma a cena em máquina de encantar.
Os cenários de Rogério Falcão, teatrais e funcionais, as luzes de Paulo Cesar Medeiros, profissionais no pleno sentido da palavra, os figurinos de Marcelo Pies, concebidos com perfeito senso estético, as coreografias sublimes, de Jerome Robbins ou novas, trabalhadas por Janice Botelho sob a supervisão de Dalal Achcar, e a direção musical límpida de Marcelo Castro são partes de um monumento à sensibilidade do homem de nossa época.
Ode ao sonho como projeto justo de transformação
E não é só. Os acertos transformam os atores em um elenco — todos atendem a um comando de arte preciso e traduzem uma vontade nova, pulsante, de materializar a cena musical como realidade do teatro brasileiro. Adriana Garambone desenha a trajetória de Louise (Gypsy) com extrema delicadeza, da submissão e da falta de talento à eclosão da estrela. Eduardo Galvão traduz com maestria o galã que tenta em vão trazer a delirante Rose para a realidade.
O jovem André Torquato (Tulsa) é uma revelação iluminada.
Liane Maya, Ada Chaseliov e Sheila Matos expõem com tons preciosos o sombrio teatro burlesco. Renata Ricci, Dudu Sandroni, JitmanVibranovski, Léo Wainer, Patrícia Scott Bueno assinam desempenhos no mínimo corretos.
A lista de atores é longa, é impossível reproduzi-la, mas ela registra algo essencial para a arte: a dedicação e o domínio da linguagem do musical, destacandose os atores mirins, que tomam a cena como ondas efervescentes de alegria de viver.
Para um país em que o indivíduo e o empreendedorismo são referências difíceis de conquistar, é oportuno contar com “Gypsy”, uma celebração crítica do valor do individualismo, uma ode ao direito ao sonho não como vertigem de poder, mas antes como projeto justo de transformação.
Tania Brandão – O Globo – 08/05/10 / Fonte: Site Möeller e Botelho

3 comentários:

  1. Cíntia Jacinto disse...:

    Totia Meireles é um furacão teatral varrendo o palco.. :O
    MORRI COM ISSO!
    É MUITO DIVA MEEEEEEEEEESMO!

  1. Totia,o furacãão.!
    Bjs

  1. Joana Gleyze disse...:

    O FURACÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!
    ELA ARRASA EM TUDO! (nobomsentidoéclaro) A ELEGÂNCIA EM PESSOA.
    O NOSSO FURACÃOOOOOOOOOOOOOOOOOO!
    AMO!