‘Gypsy’ no Globo Teatro – Entrevista com Totia Meireles e Adriana Garambone


No camarim, estão os diversos figurinos de Mama Rose e Gypsy, organizados junto com os sapatos correspondentes. No palco, as crianças repassam diversas vezes as canções e coreografias do início do espetáculo. As jovens moças e rapazes aguardam com atenção a hora de entrarem em cena. Logo em seguida, foi a vez de Totia Meireles e Adriana Garambone subirem ao palco para passar algumas cenas. Enquanto isso, os profissionais de cenografia dão os últimos retoques em alguns dos dezoito cenários que compõe a peça. Era esse o clima dos bastidores de “Gypsy” dez dias antes de o espetáculo estrear para o público.
Charles Möeller e Claudio Botelho investiram pesado quando assumiram o desafio de encenar a primeira versão brasileira deste clássico. A mega produção conta com 38 atores, 17 músicos, 18 trocas de cenário e 140 figurinos. Entre os cenários estão palcos do teatro burlesco, números infantis de Vaudeville e os ambientes internos, de casas, restaurantes e quartos de hotel. Para construir tudo isso, mais de 30 profissionais trabalharam por quase um mês, entre marceneiros, ferreiros e montadores. Foram utilizadas 13 toneladas de madeira e duas toneladas de ferro. Para suportar todo o peso, foram instaladas 40 varas cênicas no urdimento do Teatro Villa-Lobos.
O elenco jovem e infantil – que dá um verdadeiro show de profissionalismo no início do primeiro ato – foi escolhido por testes realizados em outubro do ano passado. As 14 crianças se revezam em diversos papeis durante a temporada, para não sobrecarregá-las diariamente. As personagens Baby June e Baby Louise, por exemplo, serão divididas entre seis meninas, três para cada.
Totia Meireles nos recebeu com uma pantufa de coelhinho, roupão e bobes no cabelo. Enquanto fazia a maquiagem, a atriz revelou que Mama Rose é um dos personagens mais importantes de sua carreira e destacou a grandiosidade do musical, super badalado na Broadway. Já Adriana Garambone, chegou ao camarim depois de Totia e dispensou o maquiador para fazer a base de sua maquiagem. Durante um bate-papo descontraído, ela conta como é a responsabilidade de interpretar uma pessoa que realmente existiu, comenta sobre os figurinos deslumbrantes de Gypsy e revela como é o desafio de dar a vida a duas personagens completamente diferentes no mesmo espetáculo.
Como você recebeu o convite para participar de Gypsy?
Totia Meirelles: A Adriana queria trazer a montagem para o Brasil, chamou os meninos, eles adoraram a ideia porque já tinham pensado em fazer o Gypsy há muito tempo. Ela sugeriu o nome de uma outra atriz pra fazer a Mama Rose, mas eles queriam que fosse eu porque tenho bem o perfil da personagem. Eles me ligaram pra convidar e eu tinha acabado de ver Gypsy em Nova York, então fiquei super lisonjeada. Eu já fiz vários musicais, acho que foram mais de dez, mas nunca com a grandiosidade desse personagem, de cantar r interpretar tanto. Ela é uma personagem tão rica, cômica, trágica, dramática. Ela tem tudo dentro de um musical, é maravilhosa.
Adriana Garambone: A gente começou neste projeto junto, nós compramos os direitos juntos, eu a Totia e os meninos.
O que esse papel significa pra você?
T: Tudo o que eu fiz até hoje foi esperando a Mama Rose chegar. Todas as personagens que eu fiz estavam me preparando para a Mama Rose. Eu estou com 51 anos, tenho mais ou menos a idade da personagem. Ela representa o meu diploma de musical, depois dela o que vier, vai ser mais fácil.
A: É uma responsabilidade imensa interpretar uma personagem viva, que de fato que existiu. É uma personagem que tem duas facetas: ela é uma menininha que vira uma estrela, então é preciso uma versatilidade imensa para fazer. Eu estou me esforçando para fazer essa virada dela que é o grande charme da personagem. O público pode ver essa transformação em cena. O mais importante pra mim desde o início foi estudar como fazer esta virada ficar absolutamente crível. É um trabalho em conjunto porque o figurino precisa vir junto, o cabelo também muda se modifica para que eu tenha essa mudança de atitude.
Você fez alguma preparação especial para viver esta personagem?
T: Faço aula de canto há um ano porque eu canto oito músicas, então é bem puxado. E não é só o canto em si, é o canto misturado com a fala e com gritos. Minhas cordas vocais tiveram que ser bem trabalhadas pra eu poder aguentar a temporada inteira sem perder a voz. Quando acaba o espetáculo, eu evito falar, não tomo gelado de jeito nenhum. Para fazer a Mama Rose, estou me alimentando bem e fazendo ginástica.
A: Faço aula de canto e aula de balé clássico. Foi importantíssimo para toda a montagem do personagem.
Qual é o maior desafio deste personagem?
T: Para mim o maior desafio é chegar inteira até o final, fazer a semana inteira e ficar bem porque é uma personagem que te suga muito. Ela é tragicômica, mexe muito com você. Fazer esse personagem até o fim da temporada será o meu grande desafio.
A: A dificuldade deste espetáculo é o todo. São milhares de marcas, é um espetáculo muito grandioso. A dificuldade é juntar todos estes pequenos detalhes que exige demais do ator. Ao messo tempo é fascinante. Gypsy é tudo o que uma atriz gostaria de fazer. Eu que curto muito esse poder de transformação do ator. Fazer uma menininha e uma pin-up maravilhosa, é um exercício e tanto. Se eu fizesse só uma vedete ou só uma menina, era 50% menos trabalhoso, eu estaria fazendo só um personagem.
De acordo com Claudio Botelho, Mama Rose é considerada até hoje como um dos personagens mais complexos da história dos musicais. Você concorda? Como encara essa responsabilidade?
T: Concordo plenamente porque ela tem tudo. Acho que não só a minha personagem, mas a peça em si é complexa porque ela tem uma dramaturgia muito bem arquitetada, é um musical muito completo. Lá fora, apenas as grandes damas fizeram a Mama Rose e agora eu, de metida.
Como é estrelar uma superprodução como “Gypsy”?
T: De musical, nesta proporção, é a minha primeira superprodução. Eu fiz Company, que também era uma superprodução, mas de nove anos para cá, tudo ficou mais profissional: luz, som, camareiros, diretor de cena, cenógrafo. O conjunto todo se profissionalizou nestes últimos anos. No primeiro dia que eu vim ensaiar, todos os meus figurinos já estavam desenhados, todos os cenários já tinham maquete, o palco todo desenhado. Isso é maravilhoso.
A: Eu acho que a gente não pode pensar nisso. Qualquer produção que eu faço, eu encaro com a mesma responsabilidade. Participar de uma grande produção tem o retorno, que é maravilhoso. É muito difícil no Brasil a gente ver produções deste porte. É um privilégio poder montar uma peça deste tamanho.
Não é a primeira vez que você está em um musical de Charles Moller e Cláudio Botelho. Como é trabalhar com esta dupla?
T: O Charles é o diretor que todo mundo quer ter, eu tenho vontade de empalhar o Charles e colocá-lo na minha mesinha de cabeceira. Eles são muito gentis, objetivos, sabem o que querem, sabem exatamente o que tirar de você, até onde você pode ir. Eles fazem tudo no maior alto astral, deixam todo mundo super a vontade. Eles são muito diferentes, acho que é por isso que dão certo.
A: Fiz Cole Porter com eles, mas eu não era do elenco original, entrei em uma remontagem, com elenco novo. Do zero é a primeira vez. Trabalhar com eles é maravilhoso, eu não quero outra vida, dá vontade de só trabalhar com eles. Eles são muito organizados e realmente chegaram em um aprimoramento de método que ajuda muito a gente, facilita o nosso trabalho. Eles dão suporte para tudo. Acho que eles estão em um momento amadurecido não só do artístico, mas de toda a estrutura e isso pro ator é muito bom.
Como é a sua Mama Rose e sua Gypsy?
T: Eu vi Bernadette Peters, Bette Midler e Petti LuPone várias vezes. Cada uma tem a sua Mama Rose e eu tenho a minha. Tentei pegar o que há de melhor em cada uma delas para fazer a minha.
A: Eu e o Charles conversamos muito sobre o conceito e sobre o que foi esta mulher. A peça mostra a vida dela toda, não é apenas um momento da vida dela. Sempre acabo tendo uma visão humanitária e social. Eu torço para que as mães pensem no assunto. Quando eu crio um personagem, sempre penso que a arte está aí para mostrar alguma coisa para a gente. Fiz esta Gypsy pensando muito no que ela pode influenciar a quem está assistindo. Eu tenho vontade de falar para as mães: ‘olhem para os seus filhos, conheçam os seus filhos e compreenda-os, não queria que eles sejam aquilo o que eles não são’.
Fale sobre cenários e figurinos.
A: Eu troco de roupa nove vezes. A peruca é uma só, mas tenho seis sapatos. Os cenários são uma loucura. Cada vez que eu chego aqui tem uma coisa nova. Ao mesmo tempo que é simples, tem muito detalhe. Por exemplo, na pia da minha casa, tem prato sujo. É impressionante a riqueza de tudo o que eles estão fazendo. Até a metade da peça é um figurino apagadinho, aí depois quando tem a transformação da personagem, os figurinos ficam incríveis, a Totia morre de inveja! De vedete são cinco figurinos, mais os de Louise que eu não sei quantos. Eu nunca fiz uma peça com tanta roupa, tanto cenário. É a maior produção que eu já fiz sem sombra de dúvidas.
Como foram os ensaios?
T: Foram maios ou menos sete horas de ensaio todos os dias com apenas uma folga na semana, durante dois meses. É puxado, mas ao mesmo tempo é tudo muito organizado. A gente recebia um cronograma com todos os horários, então a gente sabia exatamente o que ia fazer.
A: Eu não faço mais nada da minha vida. Eu acordo, faço balé clássico, aula de canto, venho para o teatro e depois vou pra casa dormir. Eu tenho esta característica mesmo. Quando eu entro em um trabalho, não atendo nem telefone, fico muito concentrada, mas eu adoro. A grande diversão da minha vida é isso, a minha balada é essa.
* Matéria publicada originalmente no Site Globo no Teatro
Fonte: Site Moeller e Botelho

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